Por que escrevo?, um projeto

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O projeto Por que escrevo? nasceu de dois momentos: o primeiro é este texto aqui, o segundo é a palestra que ministrei para a turma 2 do primeiro semestre de Pedagogia da Universidade Metodista de São Paulo, um Círculo de Leituras de poesias.

Disseram que eu sou da poesia horizontal, mas não disseram que eu poderia colher as respostas do outro – tampouco disseram que eu encontraria nas pessoas o próprio vislumbre do que é escrever.

Então, aqui, as respostas:

http://porqueescrevo.tumblr.com/

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Áudio: O Delírio do Ser, por Yuri Kiddo

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“Texto: Rafael Pelvini http://migre.me/7eio8
Música: http://youtu.be/5-A6pN6TGg4 [Sigur Rós - Untitled #3 invertida]

ideia simples, produção simples, mais caseiro que bolo de vó.”

- Yuri Kiddo.

(não rodou? link direto aqui: http://soundcloud.com/yurikiddo/yuri-kiddo-del-rio-do-ser)

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Nothing Else Matters – III

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Yuri era silêncio brincando com a câmera, sentado na poltrona só de camiseta, cueca. “Para, nem dói”, “claro, não é em você”; na sua cama o gay encontrava-se com as mãos respingadas do sangue que saía de um corte em seu lábio. Ele encostou novamente um dedo com vacilo, o dedo que se molhou de sangue, um clique, a foto que capturaria seu olhar para as mãos sujas e secas. “Algodão, água, lenço, Yuri”, “foto, foto, espera”, mas o gay colocava os pés em meias sobre a cama, apoiando os joelhos; “eu disse espera”. Yuri se levantou, foi à cama, ajoelhou-se também, a câmera em seu rosto fotografando a espera que sangrava do rosto do outro. Ele viu a foto, era tão profissional, um artista; o gay parou curioso, esperou curioso, sangue acumulado no queixo. Então Yuri sorriu para a imagem, levantou a cabeça, “vixi”; estendeu a mão livre para o gay, tirou com seu dedo o rastro de sangue que pendia do queixo dele para a cama. “Você é uma tragédia; é só um filetinho de sangue”, “é o sabor, eu só não gosto do sabor”, desculpou-se o gay, nunca sabia o que dizer e se dava aos argumentos tolos. Mas aqui, de novo, foi surpreendido; o ar se movimentou com a proximidade Yuri, cujo a língua tocou seu rosto, subindo até o lábio machucado na câmera lenta da melancolia. A câmera foi deixada no lençol quando o gay, desde sempre nu, passou a própria língua em seu mínimo corte, sentindo sangue e saliva, salivando sangue e sentir, sangrando-se da saliva de Yuri, este que se inclinava sobre o gay inanimado, o gay que perguntava “ela está chegando?”, “mas ela não vem”. O mundo inteiro suspirou de surpresa, a câmera focando o branco de um lençol sujo, a calça de um e as roupas do outro cobrindo os descobrimentos, as garrafas de cachaça cheias de ar ansioso, a janela da sacada suada de sol, o gay mordendo-se para estancar o sangue, a ex caída na fidelidade, Yuri sendo a parte do terço que era estopim dos dias que seguiriam.

Recolhendo as roupas do chão com confusa vergonha, o gay se dirigiu ao banheiro, tomou banho rápido, voltou ao quarto. Yuri dizia “vou chamar suas fotos de nothing else matters”; o gay respirou lento, um conflito e uma conclusão se derretiam por seu corpo. Ele saía do quarto quando pediu, num último respiro, que “amanhã, na casa ou na boate ou no rolê”, Yuri fosse de preto, “você fica bem de preto”.

Para que na noite seguinte estivessem os três de luto.

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